Dez/2019 | Por Douglas Vinicius, Giovanna Grilo e Nathalia Silva.

 

As pessoas Trans não têm as mesmas chances que os demais dentro da sociedade. A primeira professora universitária travesti do Brasil, Luma Nogueira de Andrade, é a prova de que não falta capacidade para esse grupo, mas apenas oportunidades e inclusão social. Depois dela vieram algumas outras, mas ainda há muitas delas de fora!  

O sistema educacional brasileiro frequentemente não dá tantas oportunidades para as pessoas trans e não-binárias. Entrevistamos a transexual Brunna Alves, estudante de Relações Públicas na UERJ. Fizemos três perguntas a ela: Conhece autores/as trans que fazem parte do debate da ementa de alguma das matérias que você faz ou fez? Como você caracteriza a visibilidade trans nos ambientes de produção e disseminação do conhecimento? Qual a importância de garantir representatividade de fato? 

Brunna Alves na L’Oreal | Fonte: Arquivo pessoal
Brunna jogando pela Atlética de Comunicação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Órgãos oficiais não realizam levantamentos para sabermos, por exemplo, quantas pessoas transexuais há no Brasil ou qual a escolaridade delas, e isso dificulta o desenvolvimento de políticas de inclusão social. Resta às organizações independentes esse tipo de pesquisa e a luta por visibilidade.

Nosso país é o mais violento e intolerante com transexuais. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a transfobia matou 163 pessoas no ano passado e 141 até maio deste ano no Brasil. Dessas vítimas, mais da metade (53%) foi morta por arma de fogo e entre os crimes ⅘ apresentaram requintes de crueldade.

Dados do relatório mostram que os alvos não são aleatórios. Eles possuem cor, idade e ofício específicos: 82% das vítimas são pretas e pardas, 60% têm entre 17 e 29 anos. 65% dos crimes foram contra profissionais do sexo e 60% deles  aconteceram na rua. 

De acordo com a Antra, 90% da população de travestis e transexuais têm a prostituição como fonte de renda, isso se explica pela baixa escolaridade causada pelos processos de exclusão escolar e familiar.

E esses números são subnotificados, já que há diversos impedimentos estruturais para a realização dos registros e levantamentos sobre o grupo. A subjetividade que permeia atos de transfobia impede a busca por dados verdadeiramente representativos, já que os episódios de violência são frequentemente registrados em outras categorias.

Algumas das iniciativas que buscam tornar os levantamentos sobre a população travesti e trans mais precisos e visíveis à sociedade e merecem destaque são: o Censo Trans feito pela Rede Trans Brasil;  o Relatório de mortes Violentas de LGBTs do Grupo Gay da Bahia; e o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil feito pela Antra.

O Poder Público não raramente limita-se à fazer registros apenas sobre os óbitos e a vulnerabilidade da saúde dessa população, deixando que uma gama de informações relevantes para articulação de políticas públicas de inclusão sejam ignoradas por toda a sociedade.

 No que diz respeito a educação, a partir do Estado somente o CNPq nos possibilita algum tipo de medição do acesso obtido pelo grupo trans, já que o MEC não busca mensurar esse fenômeno. 

A inclusão do nome social no currículo Lattes foi realizada por 5.502 pessoas na plataforma. Dentre esses currículos, apenas 92 pessoas informaram terem cursado um mestrado e 76 se tornaram doutores.

Luma Nogueira de Andrade é primeira professora universitária travesti do Brasil.

 Atualmente ela leciona na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), atuando no Mestrado e graduação. Também preside a Associação Brasileira de Estudos da Homocultura – ABEH, orienta bolsistas de Iniciação Científica e é autora dos livros: “Diversidade Sexual, Gênero e Raça: Diálogos Brasil – África”, 2019, e “Travestis na Escola: Assujeitamento e Resistência à ordem normativa”, 2015.

Luma é mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará. Apesar do currículo e importância, o caminho até lá para ela não foi diferente. Por ser trans e lutar para permanecer na academia, teve que lidar com diversas formas de intolerância.

Segundo entrevista dada a CBN, Luma diz que desde os primeiros anos de graduação e até na pós, ela lidou com a transfobia velada e explícita. Mesmo com empenho e capacidade comprovados pela sua produção acadêmica, se sentia rejeitada por colegas de classe e professores.

Luma Nogueira de Andrade | Fonte: UFMG

Assegurar a presença de travestis e transexuais no CIStema de educação, no mercado formal, bem como buscar coletivamente a reversão do atual cenário de segregação social do grupo é responsabilidade de toda a sociedade. Políticas de inclusão social, saúde e segurança públicas são essenciais para que possamos salvar essas vidas. 

Também se faz necessária desconstruir valores e preconceitos arraigados em nossa sociedade e relações cotidianas, para que aprendamos com as interações a respeitar e valorizar as diversidades e subjetividades que compõem nossa nação. 

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O Glossário LGBT+ do Coletivo Ametista/UERJ é um ótimo material para aprender mais sobre a comunidade.

 

 

 

Transexuais no CIStema brasileiro de ensino